<p><img width="406" height="228" src="https://rollingstone.com.br/wp-content/uploads/2026/09/Andre-Abujamra-revela-processo-de-criacao-da-trilha-de-Furnas-Fundas-Viajei-muito-406x228.jpg" class="attachment-medium size-medium wp-post-image" alt="" style="margin-bottom:1rem;" decoding="async" loading="lazy" srcset="https://rollingstone.com.br/wp-content/uploads/2026/09/Andre-Abujamra-revela-processo-de-criacao-da-trilha-de-Furnas-Fundas-Viajei-muito-406x228.jpg 406w, https://rollingstone.com.br/wp-content/uploads/2026/09/Andre-Abujamra-revela-processo-de-criacao-da-trilha-de-Furnas-Fundas-Viajei-muito-800x450.jpg 800w, https://rollingstone.com.br/wp-content/uploads/2026/09/Andre-Abujamra-revela-processo-de-criacao-da-trilha-de-Furnas-Fundas-Viajei-muito-768x432.jpg 768w, https://rollingstone.com.br/wp-content/uploads/2026/09/Andre-Abujamra-revela-processo-de-criacao-da-trilha-de-Furnas-Fundas-Viajei-muito-1536x864.jpg 1536w, https://rollingstone.com.br/wp-content/uploads/2026/09/Andre-Abujamra-revela-processo-de-criacao-da-trilha-de-Furnas-Fundas-Viajei-muito.jpg 1920w" sizes="auto, (max-width: 406px) 100vw, 406px" /></p>
<p>Em conversa exclusiva com Rolling Stone Brasil, músico revela processo que misturou orquestra, música brasileira, vozes árabes invertidas e até uma “bateria bêbada”</p>
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<p>“<em>Eu recebi Furnas Fundas e o que mais me chamou a atenção do filme foi a maluquice e a diversidade</em>”, conta <strong>Abujamra</strong>. E, diante disso, decidiu seguir pelo mesmo caminho na composição. A diferença é que encontrou algo que considera cada vez mais raro no cinema: “<em>O Roberto, o diretor, me deu toda a liberdade do mundo, o que geralmente é muito raro na criação de uma música para cinema</em>”, afirma.</p>
<h2>Uma trilha que nasceu da liberdade</h2>
<p>O processo de <strong>Abujamra</strong> para compor trilhas não segue uma fórmula fixa. Segundo o músico, ele já trabalhou em mais de 90 longas e cada filme exige uma abordagem diferente. Em <strong><em>Furnas Fundas</em></strong>, ele recebeu o filme quando este já estava relativamente pronto e aproveitou a proximidade com o diretor para desenvolver o trabalho aos poucos. “<em>Todo filme é um espírito diferente. Nesse filme eu tive sorte de poder fazer o que eu quisesse</em>”, explica.</p>
<p>Na época, <strong>Abujamra</strong> morava no Rio de Janeiro, enquanto <strong>Beto</strong> ia para a cidade nos fins de semana. Os dois passavam esse período trabalhando na trilha, em um processo que o compositor descreve com uma palavra simples: diversão.</p>
<p>A primeira ideia musical veio de um lugar inesperado. <strong>Abujamra</strong> estava ouvindo uma banda árabe e decidiu que não queria fazer uma trilha que soasse necessariamente brasileira, apesar de o filme ser brasileiro. A partir daí, começou a brincar com a sonoridade.</p>
<p>“<em>Eu queria fazer uma música meio maluca. Aí eu coloquei as coisas ao contrário</em>”, lembra. A ideia acabou se expandindo para uma trilha que é uma grande mistura. “<em>Eu viajei muito nesse filme. Esse filme tem muita coisa</em>”, resume.</p>
<p>Para <strong>Abujamra</strong>, essa disposição para se jogar no desconhecido é justamente uma das coisas que fazem um projeto despertar seu interesse. “<em>O que me inspira muito é sempre eu quebrar minhas próprias pernas. Sempre inventar umas loucuras minhas</em>”, diz.</p>
<blockquote><p>“<em>É como se fosse um moleque de oito anos jogando bola na rua, assim. Com a bochecha vermelha, se sujando. Eu adoro me sujar numa trilha.</em>”</p></blockquote>
<h2>Beto queria que Abujamra “enlouquecesse”</h2>
<p>A liberdade encontrada pelo compositor não aconteceu por acaso. Ela partiu também de uma escolha deliberada de <strong>Beto</strong>, que já conhecia o trabalho de <strong>Abujamra</strong>. “<em>Ele é fã da minha banda Karnak</em>”, conta o músico. “<em>E ele chegou para mim e falou assim: ‘André, eu quero que você enlouqueça, eu quero que você faça o que você quiser’</em>.”</p>
<p>Para <strong>Abujamra</strong>, esse tipo de abertura é um presente durante a criação de um filme. Ele destaca que Beto, apesar de jovem, demonstrou uma postura bastante flexível ao longo do processo. “<em>Isso, para a gente que faz cinema, é um presente. Por isso que o filme está tão orgânico, tão bem feito e bem malucão.</em>”</p>
<p>A parceria também aparece na própria estrutura musical de <strong><em>Furnas Fundas</em></strong>. A ideia de criar identidades sonoras diferentes para os grupos de personagens partiu principalmente do diretor. A referência imaginada por <strong>Beto</strong> era o compositor russo <strong>Sergei Prokofiev</strong>, conhecido, entre outras coisas, pelo uso de diferentes temas associados a personagens e grupos.</p>
<p>“<em>Cada núcleo tem uma espécie de música</em>”, explica <strong>Abujamra</strong>. Assim, os latifundiários ganharam uma sonoridade mais próxima do terror, enquanto os vampiros receberam uma abordagem mais “<em>Bauhaus</em>”, nas palavras do músico.</p>
<h2><em>“Minha referência é a minha cabeça”</em></h2>
<p>Se existe algo que <strong>Abujamra</strong> parece rejeitar no processo de criação é a ideia de receber referências muito fechadas antes de compor. Para ele, a música precisa encontrar seu próprio caminho a partir do filme, e não simplesmente reproduzir uma linguagem já existente.</p>
<p>“<em>Eu faço tudo meio junto. Eu sou ator, então eu vou compondo tudo na hora. Eu vou viajando na maionese, tudo na hora mesmo</em>”, explica.</p>
<p>Por isso, quando perguntado sobre referências musicais ou cinematográficas utilizadas em <strong><em>Furnas Fundas</em></strong>, ele é direto: não houve nenhuma específica. “<em>A coisa que eu mais odeio em cinema, em longa-metragem, é quando a pessoa chega com referência para mim</em>”, afirma.</p>
<blockquote><p>“<em>Você vai fazer um comercial de 30 segundos? Beleza, pega uma referência. Agora, você vai fazer uma longa-metragem de quase duas horas, duas horas e meia? Deixa o cara que vai fazer a música inventar maluquice.</em>”</p></blockquote>
<p>No caso de <strong><em>Furnas Fundas</em></strong>, a principal referência foi o próprio imaginário. “<em>A referência é a minha cabeça, as minhas loucuras mesmo</em>”, resume.</p>
<p>Essa postura também explica por que <strong>Abujamra</strong> diz ter identificado a personalidade da trilha praticamente desde o início. “<em>Desde o primeiro dia. Desde a primeira cena</em>”, afirma.</p>
<p>O compositor recorre então a uma comparação com o escultor <strong>Auguste Rodin</strong> para explicar seu processo. Segundo a história que relembra, <strong>Rodin</strong> dizia que a escultura já estava dentro da pedra e que seu trabalho era apenas retirar o excesso. “<em>A música já estava dentro do filme. Só foi dar uma limpadinha que eu descobri</em>”, diz <strong>Abujamra</strong>.</p>
<h2>“<em>Minha assinatura é a mistureba que eu faço</em>“</h2>
<p>A maneira intuitiva de trabalhar também aparece na escolha dos instrumentos. Quando perguntado com quantos instrumentos costuma trabalhar, não existe, para <strong>Abujamra</strong>, uma quantidade ideal. Pode ser um único instrumento ou uma combinação de centenas.</p>
<p>“<em>Essa resposta é de dois a 300</em>”, brinca. “<em>Às vezes, um instrumento só para uma cena gigante pode funcionar. E às vezes, vários instrumentos para uma cena delicada também funcionam.</em>”</p>
<p>“<em>Eu misturei tudo com tudo</em>”, afirma. É justamente nessa combinação aparentemente improvável que <strong>Abujamra</strong> identifica sua assinatura musical. “<em>Todos os sons! A minha assinatura é essa mistureba toda que eu faço</em>”, diz.</p>
<blockquote><p>“<em>Aliás, uma das coisas que eu mais gosto é quando alguém chega e fala: ‘Nossa, aí parece um Abujamra’. Isso é o maior presente que eu tenho</em>.”</p></blockquote>
<h2>Terror, humor e uma “bateria bêbada”</h2>
<p>Embora <strong><em>Furnas Fundas</em></strong> seja um filme de gênero, misturando terror, humor, política e fantasia, <strong>Abujamra</strong> não acredita que o gênero, por si só, determine uma maneira específica de compor. “<em>Para mim, de novo, cada filme é um filme, cada filme é um espírito</em>”, afirma.</p>
<p>Entre as experiências mais inusitadas está uma solicitação feita pelo diretor que <strong>Abujamra</strong> nunca havia recebido em outro trabalho. “<em>Ele pediu pra fazer uma bateria bêbada. Isso nunca ninguém me pediu pra fazer. E eu consegui, viu?</em>”, conta, rindo.</p>
<p>Também houve espaço para manipular a própria voz de <strong>Beto</strong>, colocada ao contrário em determinado momento da trilha.</p>
<p>Outra experiência particularmente arriscada aconteceu na cena envolvendo <strong>Abaddon</strong>, personagem descrito pelo compositor como “<em>o diabão</em>”. <strong>Abujamra</strong> conta que utilizou uma voz invertida misturada à própria performance vocal. “<em>Eu acho aquela cena maravilhosa. Eu não vou dar spoiler, mas naquela cena eu fiz uma maluquice bem louca</em>”, afirma.</p>
<h2>Compor o filme inteiro, e não apenas uma cena</h2>
<p><strong>Abujamra</strong> também conta que não trabalha com a ideia de resolver cada sequência isoladamente. “<em>Num filme não adianta você fazer a trilha bonita num lugar sem pensar em outros lugares</em>”, explica. “<em>Você só vai saber se a música funciona quando você assiste o filme inteiro</em>.”</p>
<p>Por isso, ele costuma trabalhar em várias cenas simultaneamente, construindo diferentes partes da trilha e observando como elas conversam entre si. O mesmo vale para a quantidade de versões. “<em>Eu prefiro fazer uma trilha como se fosse um personagem mesmo</em>”, explica. “<em>Não tem muita repetição.</em>”</p>
<p>O processo exige, naturalmente, muitas horas diante das imagens. “<em>Quem mais assiste o filme num longa-metragem é o editor e o músico. Muito mais que o diretor ou o produtor</em>”, afirma. Isso acontece porque é preciso rever as cenas diversas vezes para encontrar o andamento, o encaixe e o momento certo de cada música.</p>
<p>Sobre a forma com que compõe a trilha, <strong>Abujamra</strong> explica: sozinho. “<em>Quando eu acabo, dependendo do orçamento, dependendo de tudo, eu sempre chamo músicos muito bons pra tocar o que eu escrevi</em>”, explica.</p>
<p>Para ele, essa etapa é importante justamente porque a execução transforma aquilo que foi imaginado durante a composição em uma performance musical concreta. “<em>Isso tá ficando uma coisa um pouco rara, mas sempre que eu posso eu faço isso.</em>”</p>
<h2>Abujamra e a inteligência artificial</h2>
<p>Com uma carreira marcada por misturas e experimentações, <strong>Abujamra</strong> também foi questionado sobre o avanço da inteligência artificial na música. Antes de responder, porém, faz uma ressalva sobre o próprio rótulo de experimentalista.</p>
<p>“<em>Eu nunca me achei muito experimentalista. Eu sempre me achei bem pop, muito romântico, mas eu aceito que eu seja experimental porque eu faço umas coisas estranhas</em>”, brinca.</p>
<p>Sobre a inteligência artificial, sua posição é de curiosidade, mas sem abandonar a preferência pelos métodos tradicionais. “<em>Eu não tenho medo da inteligência artificial em nada</em>”, afirma. Para ele, a tecnologia pode ser uma ferramenta para quem quiser utilizá-la.</p>
<p>“<em>Ela ajuda todo mundo que quer ser ajudado</em>”, diz. “<em>Eu prefiro as coisas sem ser inteligência artificial, mas ela pode ajudar a gente em algumas coisas.</em>”</p>
<p><strong>Abujamra</strong> compara a transformação provocada pela tecnologia às mudanças que já aconteceram na história da música. “<em>Os dinossauros morreram, e o mundo continua, o LP acabou e agora tá voltando</em>”, comenta.</p>
<p>A única preocupação, em tom de brincadeira, seria garantir que “<em>os robôs não matem a gente</em>”. “<em>Do resto, eu aproveito</em>,” completa.</p>
<h2>A cena favorita: quando tudo se mistura</h2>
<p>Se a proposta de <strong><em>Furnas Fundas</em></strong> era permitir que <strong>Abujamra</strong> colocasse diferentes ideias musicais dentro do mesmo universo, sua sequência favorita parece ser justamente aquela em que essa lógica chega ao limite.</p>
<p>Questionado sobre que tipo de cena gosta particularmente de musicar e qual havia sido sua favorita no filme, o compositor escolheu uma briga que acontece antes de uma sequência no coreto. “<em>Eu misturei todas as trilhas que eu fiz no filme inteiro</em>”, conta. “<em>Aí foi uma delícia.</em>”</p>
<p>A escolha resume bem a maneira como <strong>Abujamra</strong> encara a criação da trilha de <strong><em>Furnas Fundas</em></strong>: não como uma coleção de músicas isoladas, mas como um organismo em que diferentes sons, personagens e ideias podem se encontrar.</p>
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